Roteiro 7 CAFÉS QUE GUARDAM ESTÓRIAS


“É uma bica, se faz favor!” Ouve-se, a toda a hora, nos cafés e pastelarias da capital. Um pedido rápido e quase sempre automático, assim que um lisboeta passa a entrada e se aproxima do balcão. Um ritual de tal forma enraizado que conta já com séculos de tradição.

Pouco depois, lá vem a chávena fumegante, pronta para espantar o sono e satisfazer os prazeres daqueles que fazem deste shot de cafeína, uma verdadeira instituição no seu dia-a-dia. Bebido sofregamente ao balcão ou tranquilamente numa mesa de esplanada, o café expresso – há muito baptizado pelos lisboetas de “bica” – não tem horas marcadas e serve de pretexto
a qualquer ocasião. Mas há lugares históricos, nesta Lisboa de encruzilhadas, que resistem
à passagem do tempo e onde a bica tem outro sabor. Sabe a histórias de épocas passadas, adocicado pela elegância dos tempos idos. Delicadamente, aproximamos a chávena quente dos lábios e sentimos o travo da tradição onde as memórias de outras eras nos despertam a cada gole. Instalados em edifícios com belas fachadas, são cafés com alma, outrora palcos de tertúlias intelectuais que inspiraram poetas e revoluções, onde século após século, a bica serve- se ao compasso de um ritual imposto pela solenidade dos gestos.

Seja bem-vindo aos cafés icónicos de Lisboa. Sente-se confortavelmente e desfrute de uma bica num espaço que conta estórias e respira História.



A Brasileira

Chiado

Reza a lenda que foi aqui, no coração do Chiado, que o café expresso ganhou a o epíteto de bica. Inaugurada em 1905 por Adriano Telles, A Brasileira orgulhava-se de vender o “genuíno café do Brasil”, que devido à sua forte
intensidade, levou a que fosse colocado um cartaz com a advertência “Beba Isto Com Açúcar”, acabando por dar mote à sigla “BICA”. Marco incontornável da elite intelectual, foi cenário de tertúlias e galeria de arte das novas escolas
de pintura, habitualmente frequentada por nomes tão importantes como Fernando Pessoa, Almada Negreiros, Eduardo Viana ou Bernardo Marques.

Fruto da sua sumptuosidade art déco fiel à traça original, o britânico “The Telegraph” considerou-o um dos melhores cafés históricos da Europa. Do outro lado do balcão, fabricam-se memórias em estado líquido, servidas com
uma elegância que não compromete a sua orgulhosa história. Na esplanada, Fernando Pessoa permanece estaticamente sentado numa das mesas do seu café predileto, indiferente à agitação da cidade, aguardando quem ali se quiete e queira dar dois dedos de conversa ou, quem sabe, beber uma bica na sua companhia.

CAFÉ NICOLA

Baixa

No Rossio, a fachada do Nicola, da autoria de Norte Júnior, não passa despercebida a quem por ali passeia calmamente, denunciando desde logo que aquele, é um espaço que tem muito para contar. Aclamado como o café mais literário de Lisboa, abriu ao público no século XVIII pela mão de um italiano que lhe deu o nome “Botequim do Nicola”. Desde logo, começou a ser frequentado por conhecidos escritores, artistas e políticos que o visitavam com tal assiduidade que fizeram dele a sua segunda casa. Foi o caso do poeta Bocage, a quem foi erguida uma estátua no interior do espaço. Só no século XX foi baptizado com o nome que nos é familiar: Café Nicola. Hoje continua a ser palco, senão das tertúlias de outrora, pelo menos de pontos de encontro de certos estilos de interesses e modos de vida, sendo marco incontornável no roteiro de quem visita a capital.

CONFEITARIA NACIONAL

Baixa

No largo paralelo ao Rossio, instalado numa das esquinas da Praça da Figueira, ergue-se graciosamente a Confeitaria Nacional, a mais antiga da baixa lisboeta. Fundada em 1829 por Balthazar Roiz Castanheiro, foi eleita uma das melhores e mais antigas casas de doces da Europa pela CNN. Aqui nasceu, há mais de 180 anos, o tradicional e natalício bolo – rei, que mantém secreta a sua receita até aos nossos tempos. A decoração de traça pombalina com pinturas murais, adornada com o seu charme secular, faz com que, neste oásis de doçaria, tomar uma bica seja uma experiência particularmente açucarada.

MARTINHO DA ARCADA

Baixa

Foi “Casa da Neve” mas desse nome, poucos se lembram. Considerado o café mais antigo da cidade, abriga-se, desde 1782 numa das arcadas do Terreiro do Paço. As fotografias que decoram as paredes e contrastam com bonitos azulejos atestam que Fernando Pessoa também ali se demorou durante longas tardes entre conversas, pensamentos e poemas. Tradicional cenáculo de personalidades do círculo intelectual português, o Martinho da Arcada promoveu homenagens a poetas, escritores e atores amigos da casa, atribuindo-lhes mesas com os seus nomes. Hoje continua a ser, orgulhosamente, uma “casa portuguesa com certeza”, onde a História se serve à mesa com a irrepreensível excelência de sempre.

PASTELARIA BÉNARD

Chiado

Na mesma rua do café A Brasileira, uns números abaixo, o aroma intenso dos croissants com
chocolate convida a entrar na Pastelaria Bénard. Fundada em 1868 por Élie Bénard, começou por ser uma famosa e aristocrática casa de chá, escala obrigatória para senhoras de alta sociedade durante as suas elegantes visitas
ao Chiado. Hoje, após várias intervenções, a Bénard continua a privilegiar o ambiente clássico e distinto, embora lhe tenha imprimido uma dose de urbanidade. Ao balcão, numa das meses, ou mesmo na esplanada, a bica continua a servir-se com elegância, consciente do peso da história que lhe pertence, normalmente acompanhada pela afamada pastelaria que se mantem como o ex-libris da casa.

PASTELARIA VERSAILLES

Avenidas Novas

Tem o nome do requintado palácio francês e o seu interior parece uma sala saída deste. Fundada em 1992, a Pastelaria Versailles é o chamariz das Avenidas Novas exibindo, no seu interior, monumentais espelhos nas paredes e tetos trabalhados ao pormenor. A art nouveau define o ambiente ao estilo de um verdadeiro clássico café europeu. Na Versailles, o simples ato de beber café raramente é solitário. Por perto terá sempre uma das pastelarias mais refinadas e variadas de Lisboa a sorrir-lhe pela vitrina.

PASTÉIS DE BELÉM

Belém e Restelo

Desde 1837 que aqui se fabricam um dos segredos mais bem guarda dos da pastelaria conventual. Expoente máximo da doçaria lisboeta, o pastel de Belém, quentinho e polvilhado com açúcar e canela, move turistas e lisboetas, que pacientemente aguardam para saborear o fiel companheiro da bica lisboeta.